TURISMO CULTURAL
Memorial dos Severinos transforma Lagoa Nova em rota da arte e identidade
Espaço em Surubim, reúne mamulengos gigantes, ancestralidade e memória coletiva em um dos mais singulares destinos culturais do Agreste Setentrional
Publicado em 31/03/2026 às 19:30
No antigo povoado rural de Lagoa Nova, zona rural de Surubim, um território de arte, memória e pertencimento vem se consolidando como um dos mais expressivos equipamentos culturais do Agreste pernambucano. O Parque dos Mamulengos Gigantes, idealizado pelo artista plástico Severino Iabá, através de seu projeto de arte “Memorial dos Severinos” e construído de forma colaborativa, é um espaço dedicado aos “Severinos do mundo”, reunindo cultura popular, educação, meio ambiente e identidade nordestina em uma experiência que vai além da contemplação artística.
Implantado em uma área de aproximadamente 1.500 m² da propriedade da família do artista, em meio à vegetação da caatinga, o local abriga esculturas gigantes inspiradas na tradição do mamulengo. A obra dialoga diretamente com o universo do escritor João Cabral de Melo Neto ( 1920 -1999 ) especialmente com Morte e Vida Severina, e com o legado do mestre mamulengueiro Zé Petronilo Dutra (1893–1995), um dos maiores nomes da cultura popular pernambucana.
Para Severino Iabá, a obra resultou de um processo longo, intuitivo e ainda em curso. “Quando a gente cria alguma coisa, a gente não tem logo a compreensão do que está criando. Só o tempo vai revelando. Tudo começou com um grande projeto de arte, o Memorial dos Severinos, iniciado há mais de 20 anos. Foi através dele que começou a se materializar algumas ideias, dentre elas, a de construir os mamulengos gigantes, como forma de homenagear meus ancestrais e o lugar onde nasci”.
Esculturas, família e memória coletiva
O núcleo simbólico do espaço é formado por dez esculturas gigantes dispostas em círculo, cada uma carregando narrativas ligadas ao universo cultural nordestino. As esculturas em concreto fazem referência direta aos dez membros das famílias nucleares de Severino Iabá e do mestre Zé Petronilo, unindo memória familiar, ancestralidade e história coletiva.
Já o motivo dos mamulengos estarem em círculo, segundo o artista, “os mamulengos estão dançando ciranda, a dança mais democrática do mundo. Quando estamos em roda, algo mágico e libertador acontece na vida das pessoas, da comunidade, do país, do mundo. Estou falando aqui do sentimento de coletividade e pertencimento, cujo poder pode nos libertar dos males do individualismo, tornando-nos mais cooperativos e solidários”.
“Essa obra nasceu das experiências severinas da minha família, da migração, da saudade, das cartas, das partidas e dos retornos. O que fiz foi transformar em arte minhas memórias e histórias de uma experiencia severina familiar e coletiva. Arte esta que ultrapassa a nossa história pessoal.”, explica Iabá.

Todo o processo de construção das esculturas foi iniciado em 2012, após o reencontro histórico da família do artista em 2011, tendo a participação dos familiares, amigos, artistas parceiros e moradores da comunidade de Lagoa Nova. “Eu nunca fiz isso sozinho. Meus irmãos, moradores daqui e pessoas da região ajudaram a levantar essas esculturas”, Neste processo, recursos vindo do Ministério da Cultura em 2017 ajudou a erguer as últimas esculturas, que ainda precisam de um acabamento final”. reforça.
Inicialmente, as esculturas não seriam mamulengos. A mudança conceitual ocorreu quando o artista decidiu buscar uma linguagem verdadeiramente enraizada na cultura local. “Eu percebi que precisava fazer algo original, que dialogasse com a minha infância, com a história do lugar e com a convivência que tivemos com o mestre Zé Petronilo, que morava em frente à nossa casa”, relembra.
A partir dessa decisão, o mamulengo — símbolo do teatro popular nordestino — foi ampliado em escala e significado, transformando-se em elemento central da identidade visual e conceitual do Parque. Hoje, as esculturas são reconhecidas como um símbolo da cultura surubinense, atraindo visitantes, pesquisadores, estudantes e turistas interessados em arte popular e patrimônio imaterial.
Severinos do mundo
Embora profundamente ligado à história de Surubim e do Nordeste, o Memorial dos Severinos, enquanto projeto de arte, carrega uma dimensão universal. Para Iabá, os 'severinos' representam todos aqueles que ainda hoje são obrigados a migrar em busca de sobrevivência. “Não são apenas os severinos nordestinos. São os severinos do mundo inteiro: retirantes, refugiados, pessoas que fogem da fome, das guerras, das mudanças climáticas”, destaca.
Essa leitura amplia o alcance simbólico do espaço aproximando-o dos debates contemporâneos sobre migração, identidade, justiça social e meio ambiente. “É uma obra que fala de um tempo histórico, de um momento político e econômico, de mudanças profundas que impactaram positivamente nas condições de vida do povo brasileiro. Sem essas mudanças dificilmente todos os mamulengos estariam erguidos como estão hoje. E isso nem sempre é percebido de imediato por quem visita”, avalia o artista.
O seu poema “Aboio de um severino retirante” de 2012, expressa bem isso. “De pau-de-arara parti e avoando voltei ao meu encantado Agreste/Sertão. A vida seca venceu o tempo da sequidão. A resistência venceu o tempo da servidão. De tanto mamulengá o sonho se agigantou. Na terra dos severinos o sertão mar virou”.
Cultura viva, eventos e experiência turística
Além da visitação espontânea, no Parque dos Mamulengos Gigantes é palco de uma programação cultural contínua. O principal evento é o Festmamulengá, um festival de cultura popular que acontece no mês de janeiro desde 2020, momento em que acontece cortejos, exposições, oficinas e apresentações de mamulengo, dança, teatro, música, poesia e etc. Mesmo com desafios estruturais e financeiros, o evento se consolidou como um dos momentos de maior fluxo de público no espaço.
Além do festival, durante o ano se promove atividades culturais periódicas, valorizando artistas locais e regionais através do programa Vem Pernambucá no Memorial dos Severinos. "O Parque não é um espaço aberto apenas a visitação, onde as pessoas interagem com as obras. É um lugar dinâmico, capaz de provocar encontros, trocas e vivências culturais”, resume Iabá.
Outros atrativos do lugar
Quem visitar o lugar, vai se surpreender com outros atrativos, tanto dentro como fora do Parque dos Mamulengos Gigantes, todos eles relacionados ao projeto Memorial dos Severinos. Dentre eles merecem destaque o Portal Pindorama, dedicado aos povos originários; o Museu de Sol, ainda não aberto à visitação; a Carranca, escultura experimental inaugurada em 2011; o ateliê Mestre Zé Severino com suas obras e de outros artistas que podem ser adquiridas pelos turistas; o banheiro ecológico feito com 20 mil garrafinha de vidro; a Capela de Sant’Ana de inspiração barroca, a prensa antiga de casa de farinha e a escultura de Sant’na e as flores em mosaico do Mestre Zé Severino.
A entrada no espaço é gratuita, mantida com apoio de parceiros locais e contribuições espontâneas dos visitantes. O artista trabalha atualmente na criação de uma associação para garantir sustentabilidade financeira, autonomia política e ampliação das ações culturais. “A gente quer manter o acesso livre, mas também precisa pensar em como sustentar o espaço para que ele continue vivo e atuante”, pontua.
Um destino de identidade e pertencimento
Mais do que um ponto turístico em construção que em 2024 foi certificado como ponto de cultura pelo Ministério da Cultura, o Parque dos Mamulengos Gigantes, se afirma como uma experiência sensível, educativa e transformadora, onde arte, memória, história, território, identidade e meio ambiente se entrelaçam.
Desde o Portal Pindorama, que dá acesso ao Parque — até a Roda dos mamulengos gigantes, o visitante é convidado a percorrer uma narrativa que mistura passado, presente e futuro, num lugar antes pertencente ao pai do primeiro prefeito do município de Surubim até 1933, ano em que foi comprado pela avó do artista.
“Há pessoas geralmente veem a obra como bonita. Mas não é só isso. Tem uma força, uma energia e uma história sendo contada que vai muito além da questão estética. Parafraseando o Papa Francisco, a arte liberta, alarga os corações, te faz gente e amplia nossa visão de mundo". conclui Severino Iabá.
Em Lagoa Nova, o projeto Memorial dos Severinos transforma Surubim em destino de turismo cultural, onde cada escultura, cada trilha e cada espaço revelam histórias de resistência, pertencimento e identidade — dos Severinos de ontem, de hoje e do mundo inteiro.



Fonte: Portal da Cidade Surubim
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